Uma igreja acolhedora
Leonardo Veríssimo
O salmo 126 expressa bem a alegria de muitas famílias diante criação do Conselho Nacional de Acolhimento da Pessoa Neuroatípica e com Deficiência, aprovada na 41ª Reunião do SC/IPB.
O objetivo é auxiliar igrejas e presbitérios no desenvolvimento de ações de acolhimento, acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência e de pessoas neurodivergentes. Conforme a Lei Brasileira de Inclusão — Lei nº 13.146/2015 —, pessoa com deficiência é aquela que possui impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial que, em interação com barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. É importante reconhecer que deficiência e neurodivergência não são expressões equivalentes, embora possam se sobrepor em alguns casos. O Conselho pretende considerar essas especificidades com respeito, responsabilidade e fundamentação bíblica, teológica e constitucional.
Segundo dados preliminares da amostra do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo IBGE, o Brasil possui 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o que corresponde a 7,3% da população com 2 anos ou mais de idade. Trata-se de uma parcela expressiva da população, formada por pessoas e famílias que também devem ser alcançadas pelo evangelho de Jesus Cristo e plenamente acolhidas na vida da igreja.
A decisão do Supremo Concílio determinou que o Conselho atue, inicialmente, em duas frentes: a elaboração de um regimento, contemplando as propostas apresentadas, e a construção de um plano nacional de ação para o desenvolvimento do tema até a próxima reunião do SC.
Entre as propostas encaminhadas pelos presbitérios estão a criação de uma secretaria de âmbito nacional, em parceria com outras secretarias já existentes; o desenvolvimento de ações voltadas a diferentes grupos, como pessoas surdas, cegas, com deficiência física ou intelectual; e a elaboração de uma carta pastoral que oriente a Igreja quanto aos aspectos bíblicos, teológicos e constitucionais relacionados ao acolhimento e à inclusão. Como parte da decisão, também foi constituída uma comissão responsável pela elaboração dessa carta.
Outros objetivos do Conselho serão reunir iniciativas de acolhimento e inclusão já realizadas em diferentes regiões do Brasil; mobilizar sínodos e presbitérios para a criação de secretarias ou estruturas locais de apoio; incentivar a participação de pessoas com deficiência e pessoas neuroatípicas nas igrejas locais, inclusive por meio de materiais acessíveis e adaptados; e promover a capacitação da Igreja mediante eventos, treinamentos online e outros recursos.
O Conselho já tem realizado encontros e iniciou a elaboração dos documentos necessários. Também está dialogando com órgãos e secretarias da Igreja para começar a implementar estratégias que contribuam para uma participação mais efetiva de todos na comunidade cristã.
A equipe inicial é formada por pessoas que vivenciam essa realidade e atuam diretamente nessa área:
Rev. Leonardo Veríssimo — pastor há 18 anos, atualmente pastor auxiliar da IP de Alphaville. É teólogo, psicólogo, obteve pós-graduações nas áreas de gestão de pessoas, neuropsicologia, Autismo, Altas Habilidades e superdotação, é mestre em Teologia Histórica e mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano. Atua nas áreas pastoral e clínica com esse tema. É um dos professores associados à SNTI, lecionando sobre o tema, tem oferecido treinamentos presenciais e online. É pai de um menino autista e recebeu o diagnóstico de autismo na vida adulta.
Presb. Frank de Melo Penha — presbítero há 18 anos e advogado há mais de 23 anos. É pós-graduado em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e professor do Seminário Presbiteriano do Norte, nas disciplinas de Constituição e Ordem da IPB. É idealizador e promotor de cursos na área, além de responsável pela primeira pós-graduação em Manual Presbiteriano reconhecida pela JET-IPB. Atua como secretário presbiterial de Apoio à Pessoa com Deficiência do Presbitério de Olinda (PROL) e secretário sinodal de Apoio à Pessoa com Deficiência do Sínodo Litoral Norte de Pernambuco (SLN). É autista, pai de um filho autista e palestrante sobre acolhimento e direitos das pessoas neurodivergentes.
Profa. Letícia Muniz Magalhães da Cunha — licenciada em Pedagogia e pós-graduada em Tradução, Interpretação e Docência de Libras e em Libras e Educação de Surdos. Possui ampla experiência em docência, coordenação e instrução de Libras. Tem atuado como intérprete de Libras em eventos da IPB e da APECOM. É secretária presbiterial de Acessibilidade para Surdos do Presbitério de Guarulhos e secretária sinodal de Acessibilidade do Sínodo Norte Paulistano. Participou do projeto de tradução da Bíblia para Libras, inicialmente conhecido como DOT e atualmente denominado TPS.
Mais do que criar estruturas, o Conselho nasce com o propósito de ajudar a Igreja a remover barreiras, fortalecer famílias e anunciar, por meio de palavras e atitudes, que todos têm lugar no corpo de Cristo. Uma igreja acolhedora é aquela que reconhece a dignidade de cada pessoa e trabalha para que ninguém seja impedido de participar da comunhão, do serviço e da missão.
Fonte: https://www.ipb.org.br/conteudos/2696/uma-igreja-acolhedora